terça-feira, 24 de maio de 2016

Dois Pares e Meio de Asas

Bom dia.

O corpo é uma máquina maravilhosa. Que se veste de sensações.

Os olhos são a nossa janela para o mundo. E o mundo é infinitamente sugestivo.
São eles que nos fazem pasmar e apaixonar. Inspiram os restantes sentidos. Fazem-nos querer tocar, sentir e conhecer melhor. Dão-nos fome, fazem-nos provar e reparar em coisas que não saltam à vista de todos. E do mesmo modo que nos fazem apaixonar, são eles que muitas vezes nos fazem arrepiar.

O toque é uma realidade mais próxima do que o olhar. É mais íntimo e pessoal. Um toque não tem que ser apenas isso. Ajuda-nos a conhecer sem termos que falar. É um conhecimento silencioso, sem quaisquer reticências.

Qualquer sentido é um alarme. Mas são os nossos ouvidos que nos fazem despertar mais rápido. Entre o silêncio e o ruído, estão as mais deliciosas melodias. E se fecharmos os olhos ou nos abstrairmos do resto, obtemos o talento de escutar apenas aquilo que queremos.

O nariz é selectivo. Há cheiros que denunciam a estação do ano, que marcam cada parte do dia. Há cheiros que nos fazem querer ficar para sempre no mesmo lugar e outros que nos fazem querer voltar.

A nossa boca é uma mola de sensações. Gostamos do quente e do frio e do que é doce. Gostamos do aspecto que os nossos olhos vêem e de provar algo novo.
Provamos porque despertamos mais do que um sentido. Saboreamos porque o paladar nos satisfaz.

Viver pode tornar-se cinematográfico. Se um toque não for apenas um toque. Se experimentarmos provar algo de olhos fechados. Se, no meio do ruído, conseguirmos filtrar apenas os sons que nos interessam. Se nos deixarmos cativar pelos cheiros. E, no fim de um dia quase esgotado, ainda tivermos tempo para um olhar mais demorado.

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Um elogio aos 5 sentidos e o guião da curta-metragem Dois Pares e Meio de Asas.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Voltar a Outubro e ao Outono de outros tempos

Despistávamos a multidão para nos perdermos. Sentávamo-nos em bancos de jardim aleatórios, em lugares que permanecem intactos. Anconramo-nos à beira-rio, num banquinho que foi feito de memórias, e por lá ficamos no Outono, em Outubro, na primeira noite de chuva da estação.
O início faz tremeliques na barriga. Um mundo inteiro por descobrir, alicia-nos. Os olhos fixam-se, os corpos pedem para ficar naquele lugar. Só mais um bocadinho e um bocadinho a mais. 
Sempre houve luar, por cada mão dada, por cada respiração mais ofegante, por cada coração vibrante. Sempre houve um céu pintado para nós, a cada fim do dia, a cada sol que fugia. E então, parávamos, fosse em que sítio fosse, e prestávamos atenção.

E no banquinho, a chuva caía, caía cada vez mais e mais depressa. Valeu-me uma constipação, a primeira da estação.

E valeu-me o coração.

sábado, 5 de outubro de 2013

Dois estados de tempo no mesmo espaço

Noite taciturna, imponente. A mente desperta no seu amanhecer.
É dia na minha cabeça e noite no tempo e no espaço. Insónia, ainda bem que apareceste. A noite não quis que me sentisse sozinha. Conhece o caos, a confusão, a desordem que habitam na minha cabeça. É de manhã no caos que se instala e desperta. É de dia na desordem do caos que a minha cabeça incita.
Penso que penso no que poderia deixar de pensar. Ginástica mental falhada.
Penso que não deveria pensar mais do que no que deveria pensar, apenas.
E não penso no que faz falta pensar, penso no que me desgasta e me corrói.
O tempo há-de ajudar. Todos dizem. E o tempo não passa e é dia e noite em mim.
Um dia, quando for apenas dia. Um dia, quando for apenas noite. E uma noite, que será apenas isso.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Boa noite

Os sonhos são do material que quisermos. Umas noites são feitos de pluma, e por isso voam, não os consigo apanhar. Outras noites são feitos de chumbo e ficam no mesmo lugar sem que eu os consiga empurrar. Hoje quero que os meus sonhos sejam feitos de ti, tal e qual à tua medida para que eu os possa agarrar e os consiga fazer andar, mesmo que devagarinho. A um passo que é nosso muito conhecido. Pés síncronos. Mãos dadas. Corações em uníssono. O nosso ritmo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

"Perfeito-Estranho"

Sentámo-nos ali como duas crianças de 4 e 5 anos. Não chegamos com os pés ao chão, somos demasiado pequeninos. E o mundo à nossa volta parece tão grande que nunca mais acaba. O céu azul-outono e redondo, sem vestígios de nuvem, dá-nos a conhecer a forma do planeta. Ficamos por ali, sentados e sem tocar com os pés no chão. Não precisamos de tocar com os pés no chão, não agora que estamos a crescer. E crescer é aos bocadinhos.

Somos vítimas de uma anomalia que se manifesta em simultâneo. E cúmplices de uma história que começou sem prefácio ou nota introdutória. Não há narrador. Existe apenas um mundo inteiro como cenário e duas pessoas que na sua pequenez são detentoras de sintomas que coincidem, consequência de uma espécie de doença rara. O "perfeito-estranho".

Ser autêntico é não chegar com os pés ao chão. Não chegar com os pés ao chão é ser-se naturalmente genuíno e espontâneo, que nem uma criança. É não ter a noção correcta do tempo e viver cada momento sem pensar demasiado no que vem a seguir. Não importa o que vem a seguir. Importa o agora e importa ter o presente como um verdadeiro presente que nos é oferecido. E, tal como tu, eu não quero que isto nos passe ao lado. Quero permanecer ali sentada e quero-te lá comigo. Sem que qualquer momento espelhado no rio se perca.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O som da noite

A insónia é uma melodia capaz de despertar todos os nossos sentidos. É uma melodia nocturna que se ouve sem procurarmos por ela. É senhora e é imponente.
Ninguém saberá o que é insónia até usufruir dela como uma melodia.