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domingo, 15 de janeiro de 2012

Uma das meninas da casa

Aos saltos. Do chão para o parapeito da janela é um segundo. Elegância. Desde a pata direita da frente à pata esquerda de trás. E são as quatro iguais, pintadas de branco como se as tivesse molhado no leite. A tão característica bolinha branca no focinho. Cauda e bigodes compridos e sensoriais. Sublime.
Aquando das horas de luz, em dias frios mas com sol. Rebola-se da parte de fora da cozinha, sempre com uma preguiça e elegância contagiantes. O azul dos olhos, que tão bem contrastam com o pêlo castanho escuro e o branco das patas e do queixo, dilatam com a luz. Ao escurecer voltam os olhos de mocho. Duas bolas redondas e pretas. E com o escurecer volta a atmosfera fria que invade a parte de fora da cozinha e o resto da casa por dentro.
Aos saltos. Do chão para a janela é um segundo cronometrado. E vai ela, em patas de lã e tronco em movimentos de pluma, até à almofada em forma de uma cama, de tamanho médio e de cor azul, com a manta de pêlo curto e branco. Deita-se como quem se senta num sofá com todo o conforto do mundo, numa posição meio sentada, meio deitada. Em frente, nem a meio metro, está a lareira responsável por tornar quente o conforto das horas passadas na cozinha. E ela deita-se ali como quem observa o seu programa favorito na televisão, com uma concentração arrebatadora.
Orelhas sempre atentas, com o manifesto da cauda que se deixa mexer por ouvir o seu nome - Mia. No entanto, mia pouco. É hora de semicerrar os olhos à medida que o calor que se expande pela ampla sala de jantar. - Espaço que eu e a minha mãe usamos mais como sala de estar. Cada uma no seu computador, ela com o seu trabalho, eu com o meu estudo, ela com o seu entretenimento, eu com o meu. Quantas histórias aqui vividas, nesta sala que antigamente era a varanda do meu bisavô e já foi a dos meus avós. Desde as tardes a brincar enquanto a luz do dia invadia este lugar às tardes sentada numa cadeira, à mesa de jantar, com três ou mais computadores sobre ela.
Quando comecei a escrever isto, a fêmea mais velha mas mais pequena de tamanho, estava lá fora a aproveitar as últimas horas de sol depois de um início de tarde com chuva e trovoada. A fêmea mais nova, mais recente na casa mas maior de tamanho, brincou todo o dia dentro de casa. Agora estão as duas estendidas, cada uma na sua almofada azul, de cor igual mas de tamanhos diferentes, contagiadas pelo calor que a lareira produz, ao arder lentamente cada pedaço de lenha.
Aos saltos. Do chão à janela é um segundo. Do chão à televisão um segundo e meio. De um lado ao outro da sala um tempo, sempre, indefinido. Com o seu deambular lento e majestoso. Postura sublime. Vida de gata.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Retrato escrito de um domingo de manhã

Começou a soar o som da chuva, ainda tímida, na janela. Estou sentada à mesa da cozinha, não tenho frio. Ainda é de manhã e eu sinto-me como se fosse de tarde.

Gosto deste despertar e, por estranho que pareça - visto que é Inverno, estou a gostar dos enquadramentos que faço com o olhar. Estranho. Dou por mim a querer tirar fotografias com os olhos - às vezes gostava muito que isso fosse possível. Cada pestanejar acompanhado pelo movimento do meu pescoço e da minha cabeça é um plano que parece ter sido previamente estudado. Hoje olho para tudo como se fosse um filme ou então é a minha própria cabeça que já faz filmes com tudo. Mas este é diferente, não segue uma lógica - nem tem que seguir - é totalmente abstracto e o género foge a qualquer clássico já existente, chamo-lhe de Inverno, simplesmente. O título pode ser algo do mesmo tipo; "Retratos de Inverno", "Registos de Inverno", "Pedaços de Inverno" ou, simplesmente, "Inverno".

A minha gata corre de um lado para o outro, está na hora da brincadeira. Ela é estranha mas é o animal mais interessante que já tive. Gosto de ir conhecendo o seu temperamento e sim, fiz um esforço enorme para não escrever personalidade. É impossível não se gostar dela, embora seja má quando bem lhe apetece e eu continue a gostar dela, é o bicho mais curioso no sentido de adjectivo que descreve o que eu acho e de característica do seu temperamento. Enquanto isso, o meu Pai prepara o almoço entre o seu habitual passo apressado de um lado para o outro.

A chuva está agora com perfil de mulher arrebatadora, extasiada. Quer fazer-se ouvir mais do que qualquer outra coisa. Dei por mim a aumentar o volume da música e nem sequer estava a reparar que já tinham passado três faixas da playlist desde que comecei a escrever. Lá fora, o raio da chuva parece querer competir comigo. Aumento de novo o som da música. Está mesmo agreste e até já o meu Pai se manifestou, olhando por dois segundos para o terraço, com um "Ouh!" muito típico. Eu juntei-me a ele, oferecendo também o meu manifesto. Pelo menos somos dois contra milhões de gotas de chuva que parecem querer partir vidros. Até a Mia, o bicho curioso cá de casa - também conhecido como a cadela-cão de guarda mas que é um gato - se colocou em frente à porta de vidro que dá para o terraço com uma postura de medo mas sempre curiosa.

Cá dentro já soa o alarme de que o almoço está perto de ficar pronto, através do cheirinho característico dos almoços de domingo em família. E é tão bom! É sempre tão bom regressar, mesmo que por escassas horas, à casa do norte onde quando chove, não é a brincar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

E o Inverno também tem os seus dias de Sol atrevido.

O meu tipo de Natal.

Apercebi-me que uma das coisas que mais me faz gostar do Inverno é o Natal. Mas o Natal que é vivido antes dos dias 24 e 25. O Natal das ruas, das pessoas. O cheiro a Natal quando ele se apodera das cidades com todas as luzes e enfeites possíveis. É este tipo de Natal que prefiro, o espírito que eu encontro nesses dias, não sei se o há, eu é que o encontro desta maneira. Gosto da combinação do verde e do vermelho nesta altura do ano, fazem com que o Inverno pareça menos frio, menos cinzento e mais fácil de aceitar.
Fora este tipo de Natal, o que eu mais gosto no Inverno é o poder ficar perto da lareira, explorar diferentes chás sempre acompanhados por bolachinhas de manteiga ou biscoitos de canela e poder sentir que voltei ao meu habitat, sentir-me relaxada mesmo que com algumas preocupações constantes. Sabe bem ter vontade de me deixar ficar por casa.