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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Retrato escrito de um domingo de manhã

Começou a soar o som da chuva, ainda tímida, na janela. Estou sentada à mesa da cozinha, não tenho frio. Ainda é de manhã e eu sinto-me como se fosse de tarde.

Gosto deste despertar e, por estranho que pareça - visto que é Inverno, estou a gostar dos enquadramentos que faço com o olhar. Estranho. Dou por mim a querer tirar fotografias com os olhos - às vezes gostava muito que isso fosse possível. Cada pestanejar acompanhado pelo movimento do meu pescoço e da minha cabeça é um plano que parece ter sido previamente estudado. Hoje olho para tudo como se fosse um filme ou então é a minha própria cabeça que já faz filmes com tudo. Mas este é diferente, não segue uma lógica - nem tem que seguir - é totalmente abstracto e o género foge a qualquer clássico já existente, chamo-lhe de Inverno, simplesmente. O título pode ser algo do mesmo tipo; "Retratos de Inverno", "Registos de Inverno", "Pedaços de Inverno" ou, simplesmente, "Inverno".

A minha gata corre de um lado para o outro, está na hora da brincadeira. Ela é estranha mas é o animal mais interessante que já tive. Gosto de ir conhecendo o seu temperamento e sim, fiz um esforço enorme para não escrever personalidade. É impossível não se gostar dela, embora seja má quando bem lhe apetece e eu continue a gostar dela, é o bicho mais curioso no sentido de adjectivo que descreve o que eu acho e de característica do seu temperamento. Enquanto isso, o meu Pai prepara o almoço entre o seu habitual passo apressado de um lado para o outro.

A chuva está agora com perfil de mulher arrebatadora, extasiada. Quer fazer-se ouvir mais do que qualquer outra coisa. Dei por mim a aumentar o volume da música e nem sequer estava a reparar que já tinham passado três faixas da playlist desde que comecei a escrever. Lá fora, o raio da chuva parece querer competir comigo. Aumento de novo o som da música. Está mesmo agreste e até já o meu Pai se manifestou, olhando por dois segundos para o terraço, com um "Ouh!" muito típico. Eu juntei-me a ele, oferecendo também o meu manifesto. Pelo menos somos dois contra milhões de gotas de chuva que parecem querer partir vidros. Até a Mia, o bicho curioso cá de casa - também conhecido como a cadela-cão de guarda mas que é um gato - se colocou em frente à porta de vidro que dá para o terraço com uma postura de medo mas sempre curiosa.

Cá dentro já soa o alarme de que o almoço está perto de ficar pronto, através do cheirinho característico dos almoços de domingo em família. E é tão bom! É sempre tão bom regressar, mesmo que por escassas horas, à casa do norte onde quando chove, não é a brincar.